
Nos Estados Unidos, a imagem dominante ainda é a do ?país mais rico do mundo?, da abundância em supermercados gigantescos e das porções exageradas em redes de fast-food. Mas, por trás dessa vitrine, há um fenômeno silencioso: milhões de pessoas que não sabem se terão o que comer amanhã.
Histórias como a de uma mãe que precisa escolher entre garantir a dieta cara que controla a epilepsia da filha ou alimentar o resto da família; de um aposentado que passa dias sobrevivendo com colheradas de pasta de amendoim; de pais que fazem apenas uma refeição para que os filhos consigam comer três vezes ao dia ? não estão em regiões remotas do planeta, mas em estados como Michigan, Califórnia, Geórgia, Flórida e Texas.
Esses personagens, como Abigail e Eden, ajudam a dar rosto a uma estatística dura: cerca de 47 milhões de pessoas viviam em lares com insegurança alimentar nos EUA em 2023, o maior número desde 2014.

O próprio governo norte-americano, por meio do Departamento de Agricultura (USDA), define insegurança alimentar como a situação em que um domicílio não tem acesso consistente, ao longo do ano, a alimentos suficientes para uma vida ativa e saudável.
Em 2023, segundo o USDA:
A organização Feeding America, maior rede de bancos de alimentos dos EUA, calculou que isso representa aproximadamente 47 milhões de pessoas, incluindo quase 14 milhões de crianças ? um salto em relação aos 44 milhões do ano anterior.
Em algumas regiões, o quadro é dramático: em condados rurais do Sul, mais de 40% das crianças vivem em lares com insegurança alimentar, segundo o estudo Map the Meal Gap, da Feeding America, analisado por reportagens recentes.

O texto que traz um conjunto de histórias emblemáticas, que se repetem em cidades grandes e pequenas:
Essas narrativas revelam uma contradição central: a insegurança alimentar nos EUA não está ligada à falta de comida no país, mas à combinação de baixos salários, alto custo de vida, fragilidade da rede de proteção social e desigualdade extrema.

O Supplemental Nutrition Assistance Program (SNAP) é o principal programa de assistência alimentar dos Estados Unidos. Ele funciona como um cartão de débito que só pode ser usado para comprar alimentos em estabelecimentos credenciados.
Alguns números recentes ajudam a dimensionar o programa:
Pesquisadores em saúde pública destacam que, apesar de ser o maior programa de nutrição do país, o SNAP oferece um valor relativamente baixo diante do custo dos alimentos, e ainda assim é considerado eficiente e com baixo índice de fraudes, com a maior parte dos recursos chegando diretamente às famílias.
Mesmo assim, muitos beneficiários convivem com estigma e desconfiança. Eden resume um medo recorrente: ?E se o governo disser que isso é fraude e que eu não mereço esse benefício??.

A fome à americana está profundamente ligada ao descompasso entre:
Entre 2011 e 2024, o preço médio das casas subiu mais de 80%; alimentos ficaram quase 30% mais caros em apenas cinco anos; carros novos passaram a custar cerca de 40% a mais desde 2020 ? números que refletem a percepção das famílias do texto original e dados compilados por organizações de pesquisa econômica e estatísticas federais.
Ao mesmo tempo, a desigualdade cresceu. Estudos sobre distribuição de renda mostram que, nas últimas décadas, o 1% mais rico passou a ganhar mais de 80 vezes a renda dos 50% mais pobres, contra uma relação de 27 para 1 nos anos 1980. O coeficiente de Gini, que mede desigualdade em uma escala de 0 a 1, subiu de algo em torno de 0,45 para quase 0,60. Esses indicadores ajudam a explicar por que tanta gente vive ?no limite?: qualquer imprevisto ? um atraso no SNAP, uma conta médica, um conserto de carro ? empurra rapidamente a família para a insegurança alimentar.

O contraste com o Brasil aparece naturalmente. Apesar de ter uma economia cerca de 13 vezes menor, o Brasil convive com um contingente semelhante (ou maior) de pessoas em insegurança alimentar.
Mas a forma de enfrentamento é diferente:
Estudos acadêmicos mostram que o Bolsa Família é um dos maiores programas de transferência condicionada do mundo, beneficiando milhões de famílias e contribuindo para a redução da pobreza e da insegurança alimentar ao ampliar a renda disponível para consumo básico.
Já o SNAP, focado na alimentação, é constantemente alvo de debates políticos sobre quem ?merece? o benefício, quanto deve receber e sob quais condições.

Nos últimos anos, a fome à americana deixou de ser apenas um drama social para se tornar também um campo de disputa política intensa.
A chamada ?One Big Beautiful Bill Act?, sancionada pelo presidente Donald Trump, ampliou as exigências de trabalho para quem recebe SNAP. Agora, não apenas adultos ?aptos e sem dependentes?, mas também pessoas entre 55 e 64 anos e pais de filhos com mais de 14 anos precisam comprovar pelo menos 20 horas semanais de trabalho, voluntariado ou treinamento para manter o benefício ? ou recebem ajuda por apenas três meses dentro de um período de três anos.
Estimativas do Escritório de Orçamento do Congresso (CBO) apontam que essas regras podem resultar em cerca de 2,4 milhões de pessoas a menos no programa por mês, ao longo da próxima década.
Além disso, mudanças recentes têm restringido o acesso de alguns grupos de imigrantes legais ? como refugiados, asilados e pessoas com proteção humanitária ? ao SNAP, o que levou coalizões de estados a processar o governo federal.
Outro ponto crítico é a decisão do USDA de encerrar os relatórios anuais de insegurança alimentar. Em 2025, o órgão anunciou que deixaria de publicar as pesquisas, alegando que seriam caras, redundantes e ?alarmistas?.
Organizações como a associação de bancos de alimentos da Califórnia criticaram a medida, argumentando que sem dados confiáveis será mais difícil monitorar o impacto das políticas públicas e lutar por mudanças em favor das milhões de pessoas atendidas mensalmente por essas entidades.
Na prática, isso significa ?apagar o termômetro? num momento em que a febre da fome está subindo.
Uma das características da fome nos EUA é sua invisibilidade. Diferente de imagens clássicas de miséria extrema, muitas pessoas em insegurança alimentar:
Pesquisadores e organizações apontam que combater a insegurança alimentar vai além de aumentar o benefício médio do SNAP. Envolve:

Mães que escolhem qual refeição vão pular, aposentados que esticam o último pote de pasta de amendoim, pais que se escondem na cozinha do trabalho para fazer a primeira refeição do dia ? não é um desvio isolado, mas um sintoma estrutural.
A chamada ?fome à americana? revela:
Ao mesmo tempo, tanto nos EUA quanto no Brasil, experiências como o SNAP e o Bolsa Família mostram que políticas públicas bem desenhadas conseguem reduzir a fome e mitigar desigualdades ? desde que sejam tratadas como direitos e investimentos sociais, e não como favores temporários.
Enquanto histórias como as de Abigail e Eden continuarem se multiplicando, a abundância americana permanecerá profundamente incompleta. A pergunta central não é se existe comida suficiente, mas quem tem acesso a ela ? e que tipo de sociedade os Estados Unidos (e o Brasil) querem ser diante desse espelho.