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Portugal continua sendo um dos destinos mais desejados por brasileiros que sonham em morar fora, investir em imóveis ou simplesmente ter mais qualidade de vida. Só que tem um detalhe importante nessa história: o mercado imobiliário em Portugal ficou muito mais caro, muito mais rápido e muito mais competitivo. E aí entra um ponto que ganhou força nos últimos meses: o impacto da entrada de compradores estrangeiros com alto poder de compra, inclusive brasileiros, em um mercado que já vinha pressionado há anos.


Os números mostram que a crise imobiliária em Portugal não é exagero de manchete. No 3º trimestre de 2025, o preço mediano das casas vendidas no país chegou a 2.111 euros por metro quadrado, uma alta anual de 16,1%, segundo o Instituto Nacional de Estatística. No mesmo período, a média da União Europeia teve alta de 5,5%, e o próprio Eurostat apontou Portugal entre os países com maiores aumentos anuais de preços de habitação no bloco. Em português claro: o preço das casas em Portugal está subindo muito acima do ritmo europeu.


Nesse cenário, os brasileiros em Portugal têm um peso cada vez maior, mas é importante separar as coisas. Uma coisa é a comunidade brasileira que mora, trabalha e tenta pagar aluguel como qualquer outra família. Outra é o grupo de compradores mais capitalizados, que olha para Lisboa, Porto, Cascais ou Algarve como oportunidade patrimonial. Segundo a AIMA, Portugal terminou 2024 com 1.543.697 cidadãos estrangeiros residentes, e os brasileiros eram a principal comunidade estrangeira, com 484.596 residentes, o equivalente a 31,4% do total. Isso ajuda a explicar por que o tema ?brasileiros em Portugal? aparece cada vez mais ligado ao debate sobre habitação.


Mas vale uma correção importante para não cair em simplificação: a crise não nasceu por causa dos brasileiros, nem pode ser colocada na conta de um único grupo. O próprio Banco de Portugal mostra um quadro mais amplo. No primeiro semestre de 2024, compradores não residentes representaram 6% do número de transações, mas 10% do valor movimentado. E o valor médio pago por esses compradores foi de 345 mil euros, bem acima dos 190 mil euros pagos, em média, pelos residentes. O banco central português também afirma que a procura de estrangeiros com maior poder de compra tem efeito sobretudo nos segmentos mais altos, com possível contágio para outras faixas do mercado. Ou seja: quando o topo encarece demais, o restante do mercado acaba sentindo o tranco.


Outro ponto que deixou essa discussão ainda mais interessante é que Portugal já tentou frear parte dessa pressão. Desde 2023, comprar imóvel deixou de ser caminho para obter o chamado golden visa. A Reuters lembra que o programa, criado em 2012, atraiu 7,3 bilhões de euros, e cerca de 90% desse dinheiro foi para o setor imobiliário antes da mudança das regras. Hoje, a compra de imóveis em Portugal já não serve como porta de entrada automática para esse tipo de residência por investimento. Isso mostra que o governo português reconheceu que havia uma distorção no mercado.


Só que mexer no golden visa não resolve tudo, porque o problema português é mais profundo. A OECD destaca que Portugal sofre há anos com baixa oferta de moradia acessível, mercado de aluguel fraco, barreiras ao investimento habitacional e estoque pequeno de habitação social. A organização aponta que, em 2022, o país gastava apenas 0,1% do PIB em habitação social, e que os municípios identificaram mais de 125 mil famílias vivendo em situação de privação habitacional. Ao mesmo tempo, a Comissão Europeia informa que o plano financiado pelo mecanismo de recuperação da UE prevê 1,2 bilhão de euros para apoiar cerca de 26 mil unidades habitacionais até junho de 2026. É um passo importante, mas ainda insuficiente para resolver o tamanho do buraco.

E onde isso bate no dia a dia? No bolso, claro. Dados divulgados pelo INE mostram que, em 2024, a mediana do peso dos custos com habitação subiu para 12,0%, e a taxa de sobrecarga com habitação avançou para 6,9%. Traduzindo: uma fatia maior da renda das famílias está indo para casa, aluguel, prestação e despesas associadas. Quando isso acontece ao mesmo tempo em que os preços sobem e a oferta não acompanha, o resultado é previsível: mais dificuldade para comprar, mais aperto para alugar e mais gente ficando de fora das áreas centrais.

Para quem pensa em morar ou investir em Portugal, a lição é simples: o país continua atraente, mas o mercado imobiliário português já não é aquele ?achado europeu? que muita gente imaginava há alguns anos. Comprar imóvel em Portugal hoje exige muito mais pesquisa, visão de longo prazo e noção realista de custos. E, para quem vai em busca de moradia, talvez o mais importante seja entender que o desafio não está só no preço de compra, mas também na disputa por oferta e na pressão crescente sobre o aluguel em Portugal.


No fim das contas, a crise imobiliária em Portugal é o retrato de um mercado que ficou globalizado antes de ficar preparado. Entrou capital, entrou procura, entrou interesse internacional ? inclusive do Brasil ?, mas a construção de moradia acessível, a habitação social e a resposta pública não acompanharam na mesma velocidade. O debate, portanto, não deveria ser apenas sobre ?culpar estrangeiros?, e sim sobre como Portugal pode equilibrar investimento, crescimento e direito à moradia sem expulsar quem vive e trabalha no país.

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