
Entenda o que está por trás da debandada das companhias da bolsa ? com humor e dados reais
O mercado de capitais brasileiro está enfrentando um enigma digno de filme de mistério: mais empresas estão saindo da bolsa do que entrando.
De janeiro até agora, nove empresas já deram tchau à B3, e outras duas devem sair até dezembro. No total, 48 empresas deixaram o pregão nos últimos quatro anos, o que representa mais de 10% de todas as listadas.
Enquanto isso, o número total de companhias listadas caiu para 415, bem abaixo das mais de 600 dos anos 1990.
Ou seja: a bolsa está encolhendo ? e não é culpa do calor.
?O juro real alto praticado no Brasil acentua a fuga de capitais da renda variável, mas não é a causa raiz. O problema do mercado de capitais brasileiro é estrutural e multifatorial.?
Tradução livre do economês: o Brasil é um condomínio onde o síndico (o governo) muda as regras toda hora, e os investidores estão cansados de pagar taxa de assembleia.
Quem precisa do mercado de ações quando o Tesouro Selic tá rendendo quase 1% ao mês?
A taxa básica de juros (Selic) é o maior vilão dessa história.
Com juros reais nas alturas, investir em ações parece mais arriscado que comprar apartamento na planta em 2014.
O investidor pensa: ?pra que sofrer com volatilidade se eu posso ganhar dormindo??.
E as empresas? Olham isso e decidem que abrir capital agora seria o mesmo que lançar uma pizzaria artesanal durante a pandemia ? timing ruim.
?Os ciclos de alta e de queda nas taxas de juros costumam afetar as expectativas em relação ao comportamento do mercado.?
Não é coincidência: nas últimas vezes que a Selic caiu, o número de empresas listadas subiu.
Agora que os juros voltaram ao topo do Everest, o apetite por IPOs despencou.

Menos de 5% da população investe na bolsa brasileira, contra mais de 50% nos Estados Unidos.
O brasileiro médio é o investidor mais traumatizado do planeta: viveu planos econômicos, congelamento de poupança e inflação de três dígitos.
Por isso, prefere o rendimento fixo, seguro e previsível ? mesmo que menor.
Enquanto isso, nos EUA, o volume médio diário da bolsa é de US$ 485 bilhões.
Na B3? Apenas US$ 3 bilhões.
Lá, é Wall Street. Aqui, é o ?mercadinho do Zé?.
Listar ações na bolsa parece incrível: mais visibilidade, liquidez e prestígio.
Mas manter-se listado é caro: auditoria, compliance, relatórios trimestrais, reuniões e minoritários te xingando no Twitter.
Algumas empresas perceberam que era mais negócio ?fechar o capital? ? e a nova Resolução CVM 215 ajudou nisso.
Agora, ficou mais fácil sair da bolsa sem precisar contratar um laudo caro.
É o famoso ?modo ghost corporativo?: sumir sem precisar justificar muito.
?Essa flexibilização vai ajudar nesse movimento de saída de empresas da bolsa.?
Muitas empresas também saem da bolsa porque foram compradas ou fundidas.
O setor de saúde, por exemplo, teve 817 transações entre 2003 e 2023 ? muitas acabaram tirando as ações de circulação.
É tipo casamento: duas empresas viram uma só e deletam o perfil da B3.
Outras simplesmente preferem morar fora.
A Gol quer listar nos Estados Unidos; a JBS já fez dupla listagem.
Lá fora, há mais liquidez, mais investidores e mais paciência com balanços vermelhos.
Aqui, o investidor some ao primeiro resultado negativo.
A B3 é dominada por bancos, elétricas e commodities ? setores seguros, mas pouco empolgantes.
Cadê as techs, startups e fintechs que fazem a bolsa bombar?
Elas preferem o mercado americano, onde as avaliações (valuations) são melhores e o investidor entende que ?prejuízo hoje pode ser lucro amanhã?.
Resultado: a bolsa brasileira parece uma playlist repetida ? sólida, mas sem novidades.
?É um cenário que remunera muito os investimentos no mercado financeiro, mas também pune muito os tomadores de recursos.?
?Os juros têm um efeito de longo prazo. ? Certamente, isso incentivará o retorno das empresas à bolsa, só não vai acontecer do dia para a noite.?
?No curto prazo, vejo mais empresas saindo do que entrando na bolsa.?
Os professores José Carlos de Souza Filho (FIA) e Paula Magalhães (Demarest) resumem:
os juros altos afastam empresas e investidores, e a mudança desse cenário virá devagar, conforme a Selic cair e a confiança voltar.
Apesar da maré baixa, há boas notícias no horizonte:
?O problema do mercado de capitais brasileiro é estrutural e multifatorial.?
Ou seja, ainda há muito o que ajustar ? mas o potencial é gigante.
Com educação financeira, estabilidade e menos burocracia, o Brasil pode voltar a ser um terreno fértil para IPOs e captação de investimentos.

A fuga das empresas da B3 não é um surto, é sintoma:
juros altos, baixo apetite por risco, burocracia, concentração setorial e custo alto para ser ?empresa pública?.
Mas tudo pode mudar. Quando os juros caírem e o investidor brasileiro descobrir que renda variável não é vilã, talvez vejamos uma nova safra de IPOs.
Enquanto isso, a B3 segue firme ? meio vazia, meio cansada ? tentando mostrar que ainda tem fôlego pra recomeçar.
E quem sabe, em breve, o pregão volte a tocar o sino não pra se despedir? mas pra dar boas-vindas.