
O anúncio do presidente americano Donald Trump de que vai impor tarifas extras de 100 % sobre todos os produtos chineses importados pelos EUA e de que vai restringir a venda de softwares estratégicos ao mercado chinês reacende uma das disputas econômicas mais intensas da era moderna: a guerra comercial entre as duas maiores potências globais.
Mas por que esse movimento? Quais são os reflexos no comércio, na cadeia de produção global e nos mercados? E quais são os riscos de escalada? Vamos destrinchar esses pontos.
As terras raras (ou ?rare earth elements?, REEs) são um conjunto de 17 elementos químicos ? a maioria pertencente ao grupo dos lantanídeos, além de escândio e ítrio ? que desempenham papel crítico em tecnologias modernas: ímãs permanentes, motores elétricos, discos rígidos, turbinas eólicas, componentes de aeronaves, sistemas de defesa etc.
A China domina boa parte dessa cadeia: estima-se que controle cerca de 70 % da mineração global de terras raras e mais de 90 % do processamento e manufatura de ímãs permanentes derivados desses elementos.
Esse domínio dá à China uma vantagem estratégica: ao restringir a exportação de matérias-primas ou tecnologias relacionadas, pode influenciar cadeias produtivas sensíveis ? inclusive aquelas associadas a segurança nacional de outras nações.
Em 9 de outubro de 2025, a China anunciou uma expansão significativa de suas restrições de exportação de terras raras ? na forma da ?Notice 2025 No. 61?.
Os pontos principais dessas restrições são:
Essas medidas foram justificadas pela China sob o argumento de segurança nacional, proteção tecnológica e prevenção de vazamento de know-how estratégico.
Em reação a isso, Trump alegou que a China estaria conduzindo uma agressão inusitada ao comércio global e anunciou sua retaliação: tarifas adicionais e restrições de exportação de software.
No dia 10 de outubro de 2025, Trump anunciou que os EUA imporão tarifas extras de 100 % sobre todas as importações chinesas a partir de 1º de novembro de 2025 ? além das tarifas já vigentes.
Além disso, ele afirmou que os EUA imporão restrições à venda de softwares estratégicos para a China, considerados críticos para segurança ou domínio tecnológico.
Trump também deixou aberta a possibilidade de reverter ou suspender essas tarifas caso a China recue em suas políticas sobre terras raras.
Em coletiva na Casa Branca, Trump afirmou que ainda pode se reunir com o presidente chinês Xi Jinping durante a cúpula da APEC ? desde que a China reverta suas medidas.
Essa escalada não surge no vácuo; ela se insere no contexto das políticas tarifárias recentes do governo Trump:
Ou seja, a proposta de 100 % adicional funciona como um ?upgrade? dramático da pressão tarifária já existente.
O governo chinês reagiu com vigor: acusou os EUA de recorrerem ao ?duplo padrão? e afirmou que, caso os EUA sigam adiante com as tarifas, tomará medidas correspondentes para proteger seus interesses.
Oficiais chineses declararam que as restrições não são uma retaliação automática, mas sim medidas legítimas de segurança nacional.
Em comunicado, o Ministério do Comércio da China exigiu que os EUA retirem suas ameaças e revertam ?práticas erradas?, dizendo que continuarão vigilantes e que tomariam contra-medidas caso necessário.
Para os EUA e seus consumidores:
Para a China e sua economia exportadora:
Para as cadeias globais, especialmente de tecnologia e defesa:
Cenário diplomático / solução negociada
Há uma janela de trégua até 1º de novembro para que a China reverta suas medidas de terras raras, o que poderia evitar a aplicação efetiva das novas tarifas. Trump indicou essa possibilidade.
Se os dois países optarem por retomar negociações e compromissos, pode haver uma trégua ou moderação das medidas extremas.
Cenário de escalada plena
Caso os EUA implementem as tarifas e a China responda com retaliações (tarifas, restrições de exportação ou medidas regulatórias contra empresas americanas), teremos uma escalada que pode afetar o comércio global e gerar recuos econômicos.
Cenário de guerra tecnológica / fragmentação de cadeias
Um desdobramento possível é que as cadeias globais se fragmentem entre ?blocos tecnológicos? aliados (por exemplo, EUA/EU vs China), cada um buscando autonomia em semicondutores, matérias-primas e inovação. Isso pode aumentar os custos e reduzir a eficiência global.

O anúncio de tarifas de 100 % por Trump não é um ato isolado: ele se insere num padrão mais amplo de disputa geoeconômica entre os Estados Unidos e a China. Com o controle de terras raras pela China como peça central, esses movimentos têm repercussões que ultrapassam tarifárias ? envolvem tecnologia, segurança nacional, domínio de cadeias produtivas estratégicas e influência global.
Para observadores, investidores e empresas, o caminho adiante é incerto. Preparar-se para volatilidade nos mercados, riscos de cadeia e possível retração econômica mundial é prudente. Ao mesmo tempo, o desfecho dependerá muito da capacidade diplomática de ambas as potências de evitar que essa guerra comercial escale para um conflito mais profundo e sistêmico.